quarta-feira, 23 de março de 2016

Todas as reinações de Lúcia


“Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar” (Monteiro Lobato em carta ao amigo Godofredo Rangel) 

UMA DE MINHAS predileções é pesquisar Monteiro Lobato. A inquietação do escritor, editor e empresário surge a toda hora. Reinações de Narizinho é um exemplo disto e vale a pena analisar como foi construído esse nosso clássico. Narizinho nasceu bem diferente de como o conhecemos hoje. Lobato construiu seu primeiro livro infantil como quem vai cerzindo uma ilustradíssima colcha de retalhos sem deixar de mandar bala, em artigos e contos, nos assuntos de gente grande – entre outros feitos, ele escancarou nas urbanidades o interior de um Brasil agrário e arcaico. Tema atrativo, mote para outras postagens de jecas e urupês. Aqui, vamos nos deter apenas sobre a inquietação que construiu as histórias de Lúcia. As aventuras da órfã num sítio edênico rodeada de avó, de cozinha gostosa, pomar e ribeirão, estão registradas num livro que nasceu sob o nome de A Menina do Narizinho Arrebitado, engordou como Narizinho Arrebitado, cresceu n’As Reinações de Narizinho, depois se partiu em Novas Reinações de Narizinho e, anos depois, juntou-se num só livro, aquietando-se finalmente como Reinações de Narizinho.


A Menina do Narizinho Arrebitado, 1ª ed., capa de Voltolino. Edição fac-similar. Col. Magno Silveira

Após o ruidoso sucesso de Urupês em 1918, Lobato estreia na literatura infantil em 1920, com a A Menina do Narizinho Arrebitado. O álbum, de primorosa edição, chega a ser recomendado como presente de Natal. A folha de rosto destaca tratar-se de livro ilustrado: “Livro de figuras por Monteiro Lobato com desenhos de Voltolino – Edição da ‘Revista do Brasil’, Monteiro Lobato & Comp. São Paulo, 1920”. De fato, Lobato considerava um livro sem ilustrações algo sem graça e enfadonho. A publicação é de formato grande, capa dura e ilustrado a três cores. Requintes inusitados no padrão editorial da época – um grande avanço implantado pelo editor Lobato.
Página de rosto de A Menina do Narizinho Arrebitado, 1920. Edição fac-similar, col. Magno Silveira
Considerado um livro raro (na Biblioteca Nacional fartei-me ao folhear o original), A Menina do Narizinho Arrebitado tornou-se acessível hoje, graças à iniciativa do bibliófilo José Mindlin. Em 1982, com patrocínio da Metal Leve, Mindlin nos presenteou com uma edição fac-similar, alusiva ao centenário de nascimento de Lobato. Tem 44 páginas, letras grandes, leitura divertida bem ao gosto das crianças.

Em 1921, embalado pelo sucesso do livro e vendo o potencial do universo que começara, Lobato retoma sua Lúcia na Revista do Brasil, com novas aventuras: no número 61 (jan, 1921), três historinhas; no número 62 (fev, 1921), mais duas. Vasculhando sebos aqui e ali, consegui juntar os dois volumes da Revista:

Revista do Brasil, N.61, 1921. Na última capa, anúncio de Narizinho Arrebitado, versão escolar das aventuras já incorporando as novas historinhas publicadas na Revista. Col. Magno Silveira
Revista do Brasil, N.62, fev.1921. Col. Magno Silveira
As historinhas publicadas na Revista do Brasil estão sob o título geral de Lucia ou A Menina do Narizinho Arrebitado, seguido de uma introdução:
“A nossa literatura infantil tem sido, com poucas excepções, pobrissima de arte, e cheia de artifício – fria, desengraçada, pretenciosa. (…) Felizmente esboça-se uma reacção salutar. Puros homens de letras voltam-se para o genero, tão nobre, por ventura mais nobre do que qualquer outro. entre esses figura Monteiro Lobato, que publicou em lindo album illustrado o conto da ‘Menina do narizinho arrebitado’, e agora o vai ampliando de novos episodios, alguns do quaes se reproduzem aqui.”
As ilustrações são de Voltolino, mas a vinheta que encabeça o material é do artista J.Prado, que fez diversos trabalhos tanto para a Revista do Brasil quanto para a editora Monteiro Lobato & Cia.

Revista do Brasil, 1921. Vinheta de J.Prado. Coleção Magno Silveira 

Juntando A Menina do Narizinho Arrebitado (1920) às histórias publicadas na Revista do Brasil (1921), Lobato lança, ainda neste ano, a edição escolar de sua personagem sob o título Narizinho Arrebitado – Segundo Livro de Leitura para Uso das Escolas Primárias (aquele anunciado na capa da Revista do Brasil).

Narizinho Arrebitado já “ostenta” 182 páginas, totalmente ilustradas em preto e branco por Voltolino. Em sua divulgação, Monteiro Lobato inova outra vez, fazendo um anúncio em página inteira de jornal. Com depoimentos de professores, críticos e crianças, o reclame explora ao máximo o prestígio do ilustrador – Voltolino já era artista reconhecido na época.

Tiragem espantosa de 50.500 exemplares (dos quais 500 foram para divulgação nas escolas), Narizinho Arrebitado foi um sucesso. Ainda hoje, cavucando bem, é possível encontrar esse livrinho de amigável formato escolar. Consegui um, em muito bom estado, através de contato no Recife, os familiares se desfazendo dos livros do avô guardados num baú.
Narizinho Arrebitado, 1ª ed. 1921. Desenhos de Voltolino. Col. Magno Silveira
Anúncio em página inteira do Correio Paulistano, abril de 1921. Acervo Biblioteca Nacional

Esses dois livros – de 1920 e de 1921 – são o começo daquilo que se tornaria mais tarde o robusto livro de 300 páginas com as aventuras de Lúcia, seu primo Pedrinho, a boneca Emília, o marquês de Rabicó, um certo Visconde de Sabugosa…



“Tenho em composição um livro absolutamente original, Reinações de Narizinho – consolidação num volume grande dessas aventuras que tenho publicado por partes, com melhorias, aumentos e unificações num todo harmônico.” (Monteiro Lobato em carta ao amigo Godofredo Rangel, outubro de 1931)


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DE 1922 A 1931, MONTEIRO Lobato escreveu nove livrinhos com a turma de Lúcia. Alguns, durante sua estadia nos Estados Unidos como adido comercial do governo Washington Luís. O Marquez de Rabicó, O Noivado de Narizinho, O Gato Félix, As Aventuras do Príncipe, A Cara de Coruja, O Irmão de Pinocchio, O Circo de Escavalinho, A Pena de Papagaio e O Pó de Pirlimpimpim são narrativas independentes que dão continuidade às aventuras de Narizinho.

Esses livrinhos são a paixão de colecionadores, objetos disputados a alto preço nos leilões. Em algumas ocasiões acompanhei essas disputas, sem nunca arrematar nenhum. Tenho três deles por obra e graça do contato direto com os livreiros (aos quais agradeço).
O Marquez de Rabicó, 1922
O Noivado de Narizinho, 1924
Aventuras do Príncipe, 1928

O Gato Félix, 1928

A Cara de Coruja, 1928
O Irmão de Pinocchio, 1929
O Circo de Escavallinho, 1929
A Penna de Papagaio, 1930
O Pó de Pirlimpimpim, 1931
Em 1931, Lobato reúne tudo – A Menina do Narizinho Arrebitado, Narizinho Arrebitado mais os nove livrinhos – num só volume, com o título de As Reinações de Narizinho. Para tanto, ele reorganiza e reescreve textos a fim de conseguir unidade na obra. Os nove livrinhos se transformam em capítulos. O resultado é um livro parrudo com cerca de 300 páginas. Livro “para se ler”, conforme descreve o autor.

A tabela abaixo, extraída de Monteiro Lobato Livro a Livro (obra infantil) organizado por Marisa Lajolo e Luís Ceccantini (editora Unesp, 2008), nos fornece uma visão detalhada dos livros que, transformados em capítulos, compõem As Reinações de Narizinho (1931). Segundo Denise Maria de Paiva Bertolucci (na obra citada), “É em ‘Reinações’ que se apresenta, se caracteriza e se firma o núcleo lobatiano (…) e se estabelece o Sítio do Picapau Amarelo como espaço das histórias (…)”

Obs.: O Noivado de Narizinho foi lançado em 1924.
Porém, dois anos depois (agonia dos colecionadores!), talvez por sentir o tomo “gordo” demais para as crianças, Lobato divide As Reinações de Narizinho em dois volumes…
Reinações de Narizinho, 1933. Na capa foi eliminado o artigo “as”, presente na primeira edição. Ilustração de Jean Gabriel Villin. Coleção Magno Silveira 

Ilustração de Jean Gabriel Villin. Reinações de Narizinho, 1933. Col. Magno Silveira
Assim, em 1933, temos o primeiro volume sob o título Reinações de Narizinho, que vai até o capítulo “Aventuras do Príncipe”; e o segundo volume, chamado Novas Reinações de Narizinho com os capítulos restantes. Ambos maravilhosamente ilustrados por Jean Gabriel Villin – artista francês naturalizado brasileiro. (Tenho apenas o primeiro volume – ainda.)

As ilustrações de Jean Villin têm um “tom local” dificilmente encontrado em outro ilustrador. Suas paisagens trazem bananeiras, jabuticabeiras, carro-de-boi… A litogravura para as guardas de Reinações de Narizinho é sensacional – personagens saindo das páginas e se espalhando pelo Sítio. Ao fundo, uma típica casinha do interior rodeada (é de se imaginar) por pés de manga e abacate. Dona Benta quase surge à porta, assustada com a invasão que jorra do livro de Lúcia.
Litogravura de Jean Villin. Guardas de Reinações de Narizinho, 1933. Col. Magno Silveira
A partir da quarta edição os dois títulos voltam a ser um só volume e o artigo “As” é retirado em definitivo. Daqui em diante Reinações de Narizinho se estabiliza.



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VAMOS AO ANO de 1943, com a 10ª edição de Reinações de Narizinho. A folha de rosto informa que estão reunidos ali os volumes 1 e 11 da Biblioteca Pedagógica Brasileira, ou seja: Reinações de Narizinho (volume 1, 1933) e As Novas Reinações de Narizinho (volume 11, 1933). Repare como Lobato destaca que esse volume contém “todas as travessuras de Narizinho, Pedrinho, Emília, Rabicó”… A capa e as ilustrações são de J.U.Campos, genro de Monteiro Lobato.
Reinações de Narizinho, 10ª.ed., 1943. Capa de J.U.Campos. Coleção Magno Silveira
Folha de rosto da 10ª ed., 1943. No destaque, a indicação de que este volume contém todos os capítulos dos volumes 1 e 11 que Lobato separara em 1933 (destaque feito por mim). Col.Magno Silveira
Monteiro Lobato morreu em 1948, não sem antes organizar toda sua obra adulta e infantil. Naquele ano, publicado pela Editora Brasiliense, temos uma coleção de capas com cores berrantes, feitas por Augustus. Essa edição marcou gerações, a minha inclusive. As ilustrações internas ficaram a cargo de André Le Blanc que, com sua arte de padrão internacional, tornou aquelas 300 páginas de aventuras ainda mais encantadoras para a meninada.

Personagem marcante da literatura brasileira, com seu narizinho arrebitado, há 96 anos Lúcia faz parte da formação de todos nós – admiradores ou não das inquietações de Monteiro Lobato.

Em 1948 a capa de Reinações de Narizinho traz as cores vibrantes e o ângulo inusitado do artista Augustus. Col. Magno Silveira.
contato: magno@ochapeupensador.com.br

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quinta-feira, 9 de abril de 2015

Marcas e Caminhos Criativos

Cartaz da exposição Marcas e Caminhos Criativos
Em abril de 2012 o SESC São José dos Campos realizou uma exposição dos meus trabalhos de marca. Reencontrar esboços, primeiras anotações, erros e acertos do processo criativo e organizá-los estabelecendo uma leitura, foi um excelente exercício para mim. Foi como se olhasse para os trabalhos através de uma nova perspectiva graças ao distanciamento temporal. Depois, ao vê-los reunidos na exposição, tive a certeza de que já tinham vida própria e de fato sempre estiveram prontos para enfrentar o mercado.
Para a palestra de abertura tivemos o mestre Alexandre Wollner – uma honra indescritível. Wollner lotou o auditório e foi preciso colocar um telão no ambiente da comedoria do SESC. Recorde de público que surpreendeu o mestre. Disse-lhe então que ele havia chegado ao status de um pop-star. "Minha mulher precisa saber disso..."– respondeu, com aquela risada característica.
Magno e Wollner
Telão instalado para a palestra do Wollner
Palestra de Alexandre Wollner
Para o folder de divulgação, Rômulo Pinheiro –  Sócio-Diretor da Ásia Branding (grupo ABC), escreveu sobre a relação do design de marca e o branding. Um texto esclarecedor, que também muito me honrou.
Cada painel da exposição aborda o processo criativo de determinada marca, com inclusão dos primeiros esboços, além dos módulos construtivos.






Muito bom ver o nosso trabalho despertando interesse nos estudantes, contribuindo na sua formação. Uma experiência inesquecível.



quinta-feira, 23 de junho de 2011

Mariantonios

Mariantonios é um e-zine de trabalhos experimentais que se valem de uma precariedade necessária, recusando a conclusão, o acabamento. Como a minha labuta é desenhar marcas e projetos que precisam muitas vezes de objetividade e – sempre – de precisão, publicar no Mariantonios significou remexer as gavetas das mapotecas e desentocar trabalhos que ainda trazem o frescor da experimentação e do estampido. Neste número 2, o zine publicou um trabalho que fiz por volta de 1984, nos tempos de artes plásticas na Escola Guignard, em Belo Horizonte. Intimamente dei pra colagem o nome de República da Iraí – a rua do antigo prédio onde fundamos uma república de grandes amigos. Hoje, graças ao distanciamento no tempo, vejo na colagem ecos da minha admiração pelas obras de Paul Klee, Picasso e Marc Chagall. Veja o Mariantonios aqui.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Sobre pinturas digitais

Hoje saiu uma matéria no Diário do Comércio, São Paulo, sobre as pinturas feitas no iPhone e iPad. A jornalista Kety Shapazian se interessou por algumas pinturas digitais que cometi, publicadas neste blog e fez uma matéria na medida. Saber que o David Hockney também pinta digitalmente, para mim, foi surpreendente e fico envaidecido por estar ao lado dele numa mesma página.


quarta-feira, 16 de junho de 2010

A Cara do Brasil para entender o Cala Boca Galvão!

Com esse negócio de Copa do Mundo e todas as paixões que ela contém, aqui no Magno Studio nos envolvemos num pequeno debate sobre o acontecimento "Cala Boca Galvão!" que se tornou mais um case da/na internet. Ninguém sabe como começam essas coisas na rede, parece que Alguém postou que Cala Boca Galvão seria um novo hit da Lady Gaga e todo mundo saiu retuitando e a coisa foi se transformando em outra. Lembrou-me uma velha história de uma galinha assustada que, após uma pimenta cair em sua cabeça, fez uma tremenda confusão no terreiro onde ciscava, correndo estabanada alardeando o fim do mundo. Rapidamente patos e outros bichos a seguiram em desespero, sem perceber que o fim do mundo não passava de uma pimentinha caída na cabeça.
   Para os afoitos e, principalmente, para os que usam apenas a internet como fonte de pesquisa, as redes sociais, às vezes, se tornam uma confusão de ecos num labirinto de espelhos. Nesse mundo hiperlinkado, o que me resta é prestar atenção, na medida do possível.
   Voltando ao Cala Boca Galvão: o mais tangível no evento, é um vídeo feito por Alguém, que jogou muita lenha na confusão e foi assunto da imprensa internacional, as pessoas do mundo preocupadas em salvar o Galvao Bird, que estaria sendo extinto pelos terceiro-mundistas. Aí é que este imbróglio fica mais interessante. Aqui no estúdio, alguns defenderam a tese de que ações assim acabam reafirmando a imagem negativa que os estrangeiros têm do Brasil – um país que não é sério – e podem, inclusive, prejudicar a visibilidade de ações ecológicas realmente sérias do país. Pensei um pouco, mas acabei me exaltando em defesa do vídeo. Na medida em que o realizou, Alguém faz troça da imagem estereotipada do Brasil e joga no mesmo caldeirão os jargões "salvem-a-amazônia/carnaval/religião/camelôs/chico-xavier/mulata/bundalêlê...". Enfim, um novo e verdadeiro Samba do Crioulo Doido (Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta). O vídeo, contextualizado ou não na Copa, mostra a criativa capacidade que temos de rir de nós mesmos, de driblar e acusar as imagens estereotipadas nos utilizando dessas mesmas imagens que nos rotulam. A antropofagia tupiniquim vislumbrada por Oswald de Andrade, revisitada. Bispo Sardinha sempre será devorado se não falar a língua nativa. Tom Zé (ou Tohn Zíi), Caetano, Oiticica, Glauber e tudo quanto mais de tropicalismo, cabem neste parangolé. Garrincha também, aquele mulato de pernas tortas com o drible inexplicável. O assunto é estimulante e longo, lembrou-me uma canção de Celso Viáfora, A Cara do Brasil (letra e vídeo abaixo) que também foi gravada visceralmente por Ney Matogrosso. Segue ainda o vídeo Cala Boca Galvão. O Homem é o único animal que ri, a nossa fauna é abundante.

"Eu estava esparramado na rede
jeca urbanóide de papo pro ar
me bateu a pergunta, meio à esmo:
na verdade, o Brasil o que será?
O Brasil é o homem que tem sede
ou quem vive da seca do sertão?
Ou será que o Brasil dos dois é o mesmo
o que vai é o que vem na contra-mão?
O Brasil é um caboclo sem dinheiro
procurando o doutor nalgum lugar
ou será o professor Darcy Ribeiro
que fugiu do hospital pra se tratar?


A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho
Ninguém precisa consertar
Se não der certo a gente se virar sozinho
decerto então nunca vai dar

O Brasil é o que tem talher de prata
ou aquele que só come com a mão?
Ou será que o Brasil é o que não come
o Brasil gordo na contradição?
O Brasil que bate tambor de lata
ou que bate carteira na estação?
O Brasil é o lixo que consome
ou tem nele o maná da criação?
Brasil Mauro Silva, Dunga e Zinho
que é o Brasil zero a zero e campeão
ou o Brasil que parou pelo caminho:
Zico, Sócrates, Júnior e Falcão...?

A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho...

O Brasil é uma foto do Betinho
ou um vídeo da Favela Naval?
São os Trens da Alegria de Brasília
ou os trens de subúrbio da Central?
Brasil-globo de Roberto Marinho?
Brasil-bairro: Carlinhos-Candeal?
Quem vê, do Vidigal, o mar e as ilhas
ou quem das ilhas vê o Vidigal?
O Brasil encharcado, palafita?
Seco açude sangrado, chapadão?
Ou será que é uma Avenida Paulista?
Qual a cara da cara da nação?"




sexta-feira, 11 de junho de 2010

Laurie Anderson

Às vésperas de começar algumas práticas de gravura usando ferramentas e suporte tradicionais, no atelier do amigo George Gütlich (ok, zg, vc venceu!), recebo um livro aguardado há semanas: Night Life. Laurie Anderson é sua autora e ela me fascina desde os anos 1980 quando nos empolgou com O Superman – música crítica-minimalista-sintética-mântrica ...
Em 2005, Laurie Anderson fez uma série de shows solo que chamou de The End of the Moon. Grande contadora de histórias, diz que naquela temporada começou a ter sonhos muito vívidos e instigantes. "I began to draw my dreams literally out of self-defense".
Armada de um computador e tablet colocados ao lado de sua cama, nos hotéis, ela acordava no meio da noite e registrava os sonhos de maneira imediata, sem procurar interpretar ou pensar nos seus significados. Os desenhos e pinturas resultantes desse processo estão em Night Life, acompanhados de pequenos textos prosa-poéticos relativos ao sonho.
Laurie Anderson, artista da vanguarda multimídia no tempo em que ainda nem sabíamos muito bem a abrangência desta palavra (hoje fora de moda), continua a me inspirar. Fico pensando sobre a importância de se dominar a técnica tradicional da gravura (ou demais técnicas) para chegarmos a uma expressão artística, face à urgência existencial de registrarmos as imagens que habitam nossos sonhos. Interessam-me os gadgets, as tablets, os Macs porque eles me permitem a urgência. Os suportes e ferramentas tradicionais – tintas, grafite, goivas, metais e suas alquimias, ocupam o espaço atemporal das virtuoses. Formam uma espécie de bússola que nos ajuda na viagem, que exige disciplina e paciência para ser construída. Precisamos dos dois – me diz Laurie Anderson com sua música, seu desenho.

01.02.2005 – "The Hudson River is calm today ruffled by only a few whitecaps. I turn my head for a second. When I look back everything's chaos."


17.04.2005 – "In a deserted hotel lobby a fox is pleading with a corpse. The fox is sobbing, 'I loved you! I always loved you!' I'm thinking, 'You know, there's something really fake about that fox'. My brother stands in the doorway taking photographs."



08.06.2005 – "I'm trying to cut pearls into small pieces but they keep skidding out from under the knife. When I cut them with scissors they pop and scatter. Some of them are obviously fake. Some seem like they might be quite valuable."

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Atelier de bolso #6

Enquanto não me reaproximo da pintura em sua forma tradicional (pincel, tinta, suportes...), seguem mais algumas experiências intercalando os apps Pollock e Brushes no iPhone. Um, permite o gestual e o imprevisível; o outro, as texturas, o diálogo das cores.