quinta-feira, 23 de junho de 2011

Mariantonios

Mariantonios é um e-zine de trabalhos experimentais que se valem de uma precariedade necessária, recusando a conclusão, o acabamento. Como a minha labuta é desenhar marcas e projetos que precisam muitas vezes de objetividade e – sempre – de precisão, publicar no Mariantonios significou remexer as gavetas das mapotecas e desentocar trabalhos que ainda trazem o frescor da experimentação e do estampido. Neste número 2, o zine publicou um trabalho que fiz por volta de 1984, nos tempos de artes plásticas na Escola Guignard, em Belo Horizonte. Intimamente dei pra colagem o nome de República da Iraí – a rua do antigo prédio onde fundamos uma república de grandes amigos. Hoje, graças ao distanciamento no tempo, vejo na colagem ecos da minha admiração pelas obras de Paul Klee, Picasso e Marc Chagall. Veja o Mariantonios aqui.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Sobre pinturas digitais

Hoje saiu uma matéria no Diário do Comércio, São Paulo, sobre as pinturas feitas no iPhone e iPad. A jornalista Kety Shapazian se interessou por algumas pinturas digitais que cometi, publicadas neste blog e fez uma matéria na medida. Saber que o David Hockney também pinta digitalmente, para mim, foi surpreendente e fico envaidecido por estar ao lado dele numa mesma página. Para ler, clique aqui.


quarta-feira, 16 de junho de 2010

A Cara do Brasil para entender o Cala Boca Galvão!

Com esse negócio de Copa do Mundo e todas as paixões que ela contém, aqui no Magno Studio nos envolvemos num pequeno debate sobre o acontecimento "Cala Boca Galvão!" que se tornou mais um case da/na internet. Ninguém sabe como começam essas coisas na rede, parece que Alguém postou que Cala Boca Galvão seria um novo hit da Lady Gaga e todo mundo saiu retuitando e a coisa foi se transformando em outra. Lembrou-me uma velha história de uma galinha assustada que, após uma pimenta cair em sua cabeça, fez uma tremenda confusão no terreiro onde ciscava, correndo estabanada alardeando o fim do mundo. Rapidamente patos e outros bichos a seguiram em desespero, sem perceber que o fim do mundo não passava de uma pimentinha caída na cabeça.
   Para os afoitos e, principalmente, para os que usam apenas a internet como fonte de pesquisa, as redes sociais, às vezes, se tornam uma confusão de ecos num labirinto de espelhos. Nesse mundo hiperlinkado, o que me resta é prestar atenção, na medida do possível.
   Voltando ao Cala Boca Galvão: o mais tangível no evento, é um vídeo feito por Alguém, que jogou muita lenha na confusão e foi assunto da imprensa internacional, as pessoas do mundo preocupadas em salvar o Galvao Bird, que estaria sendo extinto pelos terceiro-mundistas. Aí é que este imbróglio fica mais interessante. Aqui no estúdio, alguns defenderam a tese de que ações assim acabam reafirmando a imagem negativa que os estrangeiros têm do Brasil – um país que não é sério – e podem, inclusive, prejudicar a visibilidade de ações ecológicas realmente sérias do país. Pensei um pouco, mas acabei me exaltando em defesa do vídeo. Na medida em que o realizou, Alguém faz troça da imagem estereotipada do Brasil e joga no mesmo caldeirão os jargões "salvem-a-amazônia/carnaval/religião/camelôs/chico-xavier/mulata/bundalêlê...". Enfim, um novo e verdadeiro Samba do Crioulo Doido (Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta). O vídeo, contextualizado ou não na Copa, mostra a criativa capacidade que temos de rir de nós mesmos, de driblar e acusar as imagens estereotipadas nos utilizando dessas mesmas imagens que nos rotulam. A antropofagia tupiniquim vislumbrada por Oswald de Andrade, revisitada. Bispo Sardinha sempre será devorado se não falar a língua nativa. Tom Zé (ou Tohn Zíi), Caetano, Oiticica, Glauber e tudo quanto mais de tropicalismo, cabem neste parangolé. Garrincha também, aquele mulato de pernas tortas com o drible inexplicável. O assunto é estimulante e longo, lembrou-me uma canção de Celso Viáfora, A Cara do Brasil (letra e vídeo abaixo) que também foi gravada visceralmente por Ney Matogrosso. Segue ainda o vídeo Cala Boca Galvão. O Homem é o único animal que ri, a nossa fauna é abundante.

"Eu estava esparramado na rede
jeca urbanóide de papo pro ar
me bateu a pergunta, meio à esmo:
na verdade, o Brasil o que será?
O Brasil é o homem que tem sede
ou quem vive da seca do sertão?
Ou será que o Brasil dos dois é o mesmo
o que vai é o que vem na contra-mão?
O Brasil é um caboclo sem dinheiro
procurando o doutor nalgum lugar
ou será o professor Darcy Ribeiro
que fugiu do hospital pra se tratar?


A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho
Ninguém precisa consertar
Se não der certo a gente se virar sozinho
decerto então nunca vai dar

O Brasil é o que tem talher de prata
ou aquele que só come com a mão?
Ou será que o Brasil é o que não come
o Brasil gordo na contradição?
O Brasil que bate tambor de lata
ou que bate carteira na estação?
O Brasil é o lixo que consome
ou tem nele o maná da criação?
Brasil Mauro Silva, Dunga e Zinho
que é o Brasil zero a zero e campeão
ou o Brasil que parou pelo caminho:
Zico, Sócrates, Júnior e Falcão...?

A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho...

O Brasil é uma foto do Betinho
ou um vídeo da Favela Naval?
São os Trens da Alegria de Brasília
ou os trens de subúrbio da Central?
Brasil-globo de Roberto Marinho?
Brasil-bairro: Carlinhos-Candeal?
Quem vê, do Vidigal, o mar e as ilhas
ou quem das ilhas vê o Vidigal?
O Brasil encharcado, palafita?
Seco açude sangrado, chapadão?
Ou será que é uma Avenida Paulista?
Qual a cara da cara da nação?"




sexta-feira, 11 de junho de 2010

Laurie Anderson

Às vésperas de começar algumas práticas de gravura usando ferramentas e suporte tradicionais, no atelier do amigo George Gütlich (ok, zg, vc venceu!), recebo um livro aguardado há semanas: Night Life. Laurie Anderson é sua autora e ela me fascina desde os anos 1980 quando nos empolgou com O Superman – música crítica-minimalista-sintética-mântrica ...
Em 2005, Laurie Anderson fez uma série de shows solo que chamou de The End of the Moon. Grande contadora de histórias, diz que naquela temporada começou a ter sonhos muito vívidos e instigantes. "I began to draw my dreams literally out of self-defense".
Armada de um computador e tablet colocados ao lado de sua cama, nos hotéis, ela acordava no meio da noite e registrava os sonhos de maneira imediata, sem procurar interpretar ou pensar nos seus significados. Os desenhos e pinturas resultantes desse processo estão em Night Life, acompanhados de pequenos textos prosa-poéticos relativos ao sonho.
Laurie Anderson, artista da vanguarda multimídia no tempo em que ainda nem sabíamos muito bem a abrangência desta palavra (hoje fora de moda), continua a me inspirar. Fico pensando sobre a importância de se dominar a técnica tradicional da gravura (ou demais técnicas) para chegarmos a uma expressão artística, face à urgência existencial de registrarmos as imagens que habitam nossos sonhos. Interessam-me os gadgets, as tablets, os Macs porque eles me permitem a urgência. Os suportes e ferramentas tradicionais – tintas, grafite, goivas, metais e suas alquimias, ocupam o espaço atemporal das virtuoses. Formam uma espécie de bússola que nos ajuda na viagem, que exige disciplina e paciência para ser construída. Precisamos dos dois – me diz Laurie Anderson com sua música, seu desenho.

01.02.2005 – "The Hudson River is calm today ruffled by only a few whitecaps. I turn my head for a second. When I look back everything's chaos."


17.04.2005 – "In a deserted hotel lobby a fox is pleading with a corpse. The fox is sobbing, 'I loved you! I always loved you!' I'm thinking, 'You know, there's something really fake about that fox'. My brother stands in the doorway taking photographs."



08.06.2005 – "I'm trying to cut pearls into small pieces but they keep skidding out from under the knife. When I cut them with scissors they pop and scatter. Some of them are obviously fake. Some seem like they might be quite valuable."

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Atelier de bolso #6

Enquanto não me reaproximo da pintura em sua forma tradicional (pincel, tinta, suportes...), seguem mais algumas experiências intercalando os apps Pollock e Brushes no iPhone. Um, permite o gestual e o imprevisível; o outro, as texturas, o diálogo das cores.




quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Imagens

Existem imagens que nos seguem desde sempre. No meu caso, é a imagem do casal "Sagrado Coração". Desde a infância, por longo tempo, contemplava a estampa religiosa na parede da copa. No final dos anos 1980 quis revolver um pouco a minha visão estabelecida da imagem e fiz um trabalho inspirado numa linguagem pop, voluntariamente "pobre" e "suja". Utilizei lápis, guache e esmalte sintético prata. A minha intenção foi criar um espaço, uma moldura, onde a imagem do casal fosse passando como num clip musical, com movimentos repetidos e mecanizados. Com certeza para aliviar um pouco os olhos piedosos, gestos de aceitação e cores singelas daquela gravura persistente da infância. Às vezes penso em iconoclastia. Às vezes, em novas formas de reverência.


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Urupês, por Paim

Entre os meus livros que precisam de restauração, encontro o Urupês, contos de Monteiro Lobato onde aparece pela primeira vez o Jéca Tatu. O exemplar é de 1944, publicado pela Livraria Martins Editora e parece-me ser a 4ª edição. Antônio Paim Vieira é o seu ilustrador. Paim, paulistano (1895-1988), morreu praticamente esquecido, mas foi um artista atuante nos movimentos nacionalistas do início do século XX, participando, inclusive, da Semana de Arte Moderna de 1922. É responsável pela capa da edição luxuosa de As Máscaras (1920), de Menotti del Picchia, o que lhe deu projeção como ilustrador, e por muitas outras capas das revistas Fon-Fon, A Cigarra e Para Todos. Buscou diferentes formas de expressão: pintor, ceramista, ilustrador, cenarista e professor, Paim buscou uma "estética brasileira" em seus trabalhos. Nestas ilustrações de Urupês, impressionam-me a rusticidade do pincel obtida por um movimento às vezes longo e sinuoso, às vezes curto e tosco e também as grandes capitulares integrando a mancha ilustrativa.






quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Poty

Napoleon Potyguara Lazzarotto, ou Poty, é o grande ilustrador de Guimarães Rosa. Claro que existem as capas despretensiosas das primeiras edições de Sagarana, feitas por Santa Rosa e os desenhos e xilos cheios de intenção do mineiro Arlindo Daibert, que não podemos ignorar. Mas Poty para mim ficou, desde a adolescência, irremediavelmente associado ao universo roseano. Filho de italianos, nascido em Curitiba (1924 - 1998), com 19 anos já tinha ilustrações publicadas em Lenda da Herva Mate Sapecada. Estudou na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e aos 22 anos foi para a frança, com bolsa de estudos, onde aprendeu litografia. Poty dominou também as técnicas do mural, da serigrafia, da xilografia e da pintura. Muitos críticos consideram os seus murais como o trabalho mais representativo de sua obra. Eu prefiro suas xilos e bicos-de-pena principalmente quando rodeados por textos de Guimarães Rosa. Seguem aqui algumas de suas ilustrações retiradas de duas edições de Sagarana, para compararmos os resultados que ele conseguiu a bico-de-pena (10ª edição) com as mesmas ilustrações em xilogravura (19ª edição). As duas soluções me fascinam: os bicos-de-pena pela fluidez dos traços, pelos meios-tons, a textura; as xilogravuras pela crueza, pela determinação e arrojo das áreas negras. Personagens que transitam pelo norte de Minas, sul da Bahia, tão belamente ilustrados por um artista do Sul.





















sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Saudade, 1919

Thales Castanho de Andrade, escritor piracicabano, tem como principal obra o livro Saudade, lançado em 1919. Este livro é objeto de alguns estudos acadêmicos sobre as relações cidade/campo, ruralismo/nacionalismo. É considerado um clássico por alguns estudiosos, um marco na literatura infanto-juvenil. Conta a história de... bem, não vou recontar o livro. Quero mesmo é falar sobre as ilustrações que o permeiam fartamente, de J. G. Villin. Elas nos enchem os olhos de maneira soberba, com alguns momentos de toques épicos. Montanhas, campos, árvores, casas, bichos – tudo nos fala em qual país se passa a história e nos reconhecemos ali. Hoje, querer estes valores numa ilustração soa como um pecado original. Saudade, nem pensar.






quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Atelier de bolso #5

Seguem mais alguns ensaios "pintados" na telinha do iPhone. Faço como uma colagem explorando a sobreposição de camadas para obter um resultado um tanto "sujo", mas com certo lirismo que as letras ajudam a alcançar. O grande barato é lidar com a limitação do tamanho físico do aparelho, ainda mais que tenho o hábito de fazer uma pintura gestual quando lido com materiais reais. Destes três painéis, gosto mais do primeiro: resultou numa imagem mais espontânea, mais precária, porém mais expressiva.