quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Imagens

Existem imagens que nos seguem desde sempre. No meu caso, é a imagem do casal "Sagrado Coração". Desde a infância, por longo tempo, contemplava a estampa religiosa na parede da copa. No final dos anos 1980 quis revolver um pouco a minha visão estabelecida da imagem e fiz um trabalho inspirado numa linguagem pop, voluntariamente "pobre" e "suja". Utilizei lápis, guache e esmalte sintético prata. A minha intenção foi criar um espaço, uma moldura, onde a imagem do casal fosse passando como num clip musical, com movimentos repetidos e mecanizados. Com certeza para aliviar um pouco os olhos piedosos, gestos de aceitação e cores singelas daquela gravura persistente da infância. Às vezes penso em iconoclastia. Às vezes, em novas formas de reverência.


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Urupês, por Paim

Entre os meus livros que precisam de restauração, encontro o Urupês, contos de Monteiro Lobato onde aparece pela primeira vez o Jéca Tatu. O exemplar é de 1944, publicado pela Livraria Martins Editora e parece-me ser a 4ª edição. Antônio Paim Vieira é o seu ilustrador. Paim, paulistano (1895-1988), morreu praticamente esquecido, mas foi um artista atuante nos movimentos nacionalistas do início do século XX, participando, inclusive, da Semana de Arte Moderna de 1922. É responsável pela capa da edição luxuosa de As Máscaras (1920), de Menotti del Picchia, o que lhe deu projeção como ilustrador, e por muitas outras capas das revistas Fon-Fon, A Cigarra e Para Todos. Buscou diferentes formas de expressão: pintor, ceramista, ilustrador, cenarista e professor, Paim buscou uma "estética brasileira" em seus trabalhos. Nestas ilustrações de Urupês, impressionam-me a rusticidade do pincel obtida por um movimento às vezes longo e sinuoso, às vezes curto e tosco e também as grandes capitulares integrando a mancha ilustrativa.






quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Poty

Napoleon Potyguara Lazzarotto, ou Poty, é o grande ilustrador de Guimarães Rosa. Claro que existem as capas despretensiosas das primeiras edições de Sagarana, feitas por Santa Rosa e os desenhos e xilos cheios de intenção do mineiro Arlindo Daibert, que não podemos ignorar. Mas Poty para mim ficou, desde a adolescência, irremediavelmente associado ao universo roseano. Filho de italianos, nascido em Curitiba (1924 - 1998), com 19 anos já tinha ilustrações publicadas em Lenda da Herva Mate Sapecada. Estudou na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e aos 22 anos foi para a frança, com bolsa de estudos, onde aprendeu litografia. Poty dominou também as técnicas do mural, da serigrafia, da xilografia e da pintura. Muitos críticos consideram os seus murais como o trabalho mais representativo de sua obra. Eu prefiro suas xilos e bicos-de-pena principalmente quando rodeados por textos de Guimarães Rosa. Seguem aqui algumas de suas ilustrações retiradas de duas edições de Sagarana, para compararmos os resultados que ele conseguiu a bico-de-pena (10ª edição) com as mesmas ilustrações em xilogravura (19ª edição). As duas soluções me fascinam: os bicos-de-pena pela fluidez dos traços, pelos meios-tons, a textura; as xilogravuras pela crueza, pela determinação e arrojo das áreas negras. Personagens que transitam pelo norte de Minas, sul da Bahia, tão belamente ilustrados por um artista do Sul.





















sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Saudade, 1919

Thales Castanho de Andrade, escritor piracicabano, tem como principal obra o livro Saudade, lançado em 1919. Este livro é objeto de alguns estudos acadêmicos sobre as relações cidade/campo, ruralismo/nacionalismo. É considerado um clássico por alguns estudiosos, um marco na literatura infanto-juvenil. Conta a história de... bem, não vou recontar o livro. Quero mesmo é falar sobre as ilustrações que o permeiam fartamente, de J. G. Villin. Elas nos enchem os olhos de maneira soberba, com alguns momentos de toques épicos. Montanhas, campos, árvores, casas, bichos – tudo nos fala em qual país se passa a história e nos reconhecemos ali. Hoje, querer estes valores numa ilustração soa como um pecado original. Saudade, nem pensar.






quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Atelier de bolso #5

Seguem mais alguns ensaios "pintados" na telinha do iPhone. Faço como uma colagem explorando a sobreposição de camadas para obter um resultado um tanto "sujo", mas com certo lirismo que as letras ajudam a alcançar. O grande barato é lidar com a limitação do tamanho físico do aparelho, ainda mais que tenho o hábito de fazer uma pintura gestual quando lido com materiais reais. Destes três painéis, gosto mais do primeiro: resultou numa imagem mais espontânea, mais precária, porém mais expressiva.



quinta-feira, 10 de setembro de 2009

J. U. Campos e os personagens do Sítio

Existe uma bela edição da obra completa de Monteiro Lobato em capa dura que contém, além das conhecidas (e deliciosas) ilustrações de André Le Blanc, também pranchas a cores pintadas por J. U. Campos. Jurandir Ubirajara Campos nasceu em São Paulo em 1903, foi para os Estados Unidos onde se tornou desenhista do New York Times. Quando voltou ao Brasil em 1930, contribuiu para a implantação de uma nova arte a serviço da propaganda. Monteiro Lobato era seu sogro e um dos grandes incentivadores do artista. Morreu em 1972, São Paulo. Aprecie algumas destas pranchas e veja como as atuais edições da obra de Lobato carecem de trabalho a altura desse passado histórico.






terça-feira, 1 de setembro de 2009

Eis o brilho

A minha última postagem, sobre as estampas coloridas a têmpera, rendeu-me um e-mail de leitor assíduo e exigente cobrando uma solução que possibilite visualizar o brilho feito a clara de ovo sobre as pinturas. "Que faça a coisa acontecer", encerrou ele o seu e-mail que me envaideceu por ter leitores assim, aguerridos. Bem, esperei o sol da tarde entrar no estúdio e consegui uns ângulos que demonstram o "verniz" das pinturas. Agradeçam ao exigente leitor este plus. De minha parte, está aqui o agradecimento e o abraço fraterno.









sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Moda de igreja

Uma vez entrei numa espécie de antiquário, mas estava mais para uma casa entulhada, com pertences de um velho italiano saudoso de sua pátria. Queria voltar logo para a Itália onde pretendia passar o resto de seus dias e estava liquidando os pertences: móveis, velhos filmes fotográficos, livros, gramofone, rádio... Ele notou minha curiosidade com os livros, foi até um quartinho (impossível para qualquer outro mortal entrar) e de lá veio trazendo uma série de gravuras colorizadas à mão. Mais de 50 folhas com estampas retratando ordens religiosas e suas vestes características. Deliciei-me com a têmpera coberta em alguns trechos por um brilho feito a clara de ovo (infelizmente é impossível perceber esse brilho aqui, nos scanners). Isto aconteceu há uns cinco anos e desde então procuro referências históricas para estas gravuras. Se alguém tiver maiores informações, queira escrever para este pobre blogueiro.