quarta-feira, 16 de junho de 2010

A Cara do Brasil para entender o Cala Boca Galvão!

Com esse negócio de Copa do Mundo e todas as paixões que ela contém, aqui no Magno Studio nos envolvemos num pequeno debate sobre o acontecimento "Cala Boca Galvão!" que se tornou mais um case da/na internet. Ninguém sabe como começam essas coisas na rede, parece que Alguém postou que Cala Boca Galvão seria um novo hit da Lady Gaga e todo mundo saiu retuitando e a coisa foi se transformando em outra. Lembrou-me uma velha história de uma galinha assustada que, após uma pimenta cair em sua cabeça, fez uma tremenda confusão no terreiro onde ciscava, correndo estabanada alardeando o fim do mundo. Rapidamente patos e outros bichos a seguiram em desespero, sem perceber que o fim do mundo não passava de uma pimentinha caída na cabeça.
   Para os afoitos e, principalmente, para os que usam apenas a internet como fonte de pesquisa, as redes sociais, às vezes, se tornam uma confusão de ecos num labirinto de espelhos. Nesse mundo hiperlinkado, o que me resta é prestar atenção, na medida do possível.
   Voltando ao Cala Boca Galvão: o mais tangível no evento, é um vídeo feito por Alguém, que jogou muita lenha na confusão e foi assunto da imprensa internacional, as pessoas do mundo preocupadas em salvar o Galvao Bird, que estaria sendo extinto pelos terceiro-mundistas. Aí é que este imbróglio fica mais interessante. Aqui no estúdio, alguns defenderam a tese de que ações assim acabam reafirmando a imagem negativa que os estrangeiros têm do Brasil – um país que não é sério – e podem, inclusive, prejudicar a visibilidade de ações ecológicas realmente sérias do país. Pensei um pouco, mas acabei me exaltando em defesa do vídeo. Na medida em que o realizou, Alguém faz troça da imagem estereotipada do Brasil e joga no mesmo caldeirão os jargões "salvem-a-amazônia/carnaval/religião/camelôs/chico-xavier/mulata/bundalêlê...". Enfim, um novo e verdadeiro Samba do Crioulo Doido (Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta). O vídeo, contextualizado ou não na Copa, mostra a criativa capacidade que temos de rir de nós mesmos, de driblar e acusar as imagens estereotipadas nos utilizando dessas mesmas imagens que nos rotulam. A antropofagia tupiniquim vislumbrada por Oswald de Andrade, revisitada. Bispo Sardinha sempre será devorado se não falar a língua nativa. Tom Zé (ou Tohn Zíi), Caetano, Oiticica, Glauber e tudo quanto mais de tropicalismo, cabem neste parangolé. Garrincha também, aquele mulato de pernas tortas com o drible inexplicável. O assunto é estimulante e longo, lembrou-me uma canção de Celso Viáfora, A Cara do Brasil (letra e vídeo abaixo) que também foi gravada visceralmente por Ney Matogrosso. Segue ainda o vídeo Cala Boca Galvão. O Homem é o único animal que ri, a nossa fauna é abundante.

"Eu estava esparramado na rede
jeca urbanóide de papo pro ar
me bateu a pergunta, meio à esmo:
na verdade, o Brasil o que será?
O Brasil é o homem que tem sede
ou quem vive da seca do sertão?
Ou será que o Brasil dos dois é o mesmo
o que vai é o que vem na contra-mão?
O Brasil é um caboclo sem dinheiro
procurando o doutor nalgum lugar
ou será o professor Darcy Ribeiro
que fugiu do hospital pra se tratar?


A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho
Ninguém precisa consertar
Se não der certo a gente se virar sozinho
decerto então nunca vai dar

O Brasil é o que tem talher de prata
ou aquele que só come com a mão?
Ou será que o Brasil é o que não come
o Brasil gordo na contradição?
O Brasil que bate tambor de lata
ou que bate carteira na estação?
O Brasil é o lixo que consome
ou tem nele o maná da criação?
Brasil Mauro Silva, Dunga e Zinho
que é o Brasil zero a zero e campeão
ou o Brasil que parou pelo caminho:
Zico, Sócrates, Júnior e Falcão...?

A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho...

O Brasil é uma foto do Betinho
ou um vídeo da Favela Naval?
São os Trens da Alegria de Brasília
ou os trens de subúrbio da Central?
Brasil-globo de Roberto Marinho?
Brasil-bairro: Carlinhos-Candeal?
Quem vê, do Vidigal, o mar e as ilhas
ou quem das ilhas vê o Vidigal?
O Brasil encharcado, palafita?
Seco açude sangrado, chapadão?
Ou será que é uma Avenida Paulista?
Qual a cara da cara da nação?"




2 comentários:

  1. Estranho esse texto não ter nenhum comment.
    Segue então o primeiro pra dizer que o texto é foda e muito bem escrito.

    E já que vivemos nesse mundo hiperlinkado o que nos resta é prestar atenção, na medida do possível.

    foda foda.

    Vi o Link do Twitter do @Jean_galvao

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  2. Fabio, valeu pelo comment. Compartilhar idéias é um barato. Abraço.

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